Quando era menina, gostava de ‘imaginar’ a vida. Seus motivos; suas razões para ser. Isto era complicado, nem todos os adultos entendiam meu modo ‘ensimesmado’, minhas perguntas dificeis, minha solidão. Eu estava junto com as outras crianças, mas não era igual à elas – e nem queria ser, por mais que pedissem e insistissem. Nunca fui de rir fácil. Não porque fosse triste, mas porque não conseguia debochar e me fortalecer na fraqueza do outro. Se debochassem de alguém por ser gordo, eu me imaginava no lugar daquela pessoa, sofrendo com aqueles comentários cruéis das outras crianças; e me sentia incapaz de participar daquilo (e continuo boba assim até hoje).

Lembro de uma tarde, no C.A, a professorinha nos mandou pintar e recortar partes do corpo humano, que ela nos entregara em folhas ofício. No fim, essas partes seriam coladas e as meninas teriam uma bonequinha de papel de tamanho natural (*.*) e os meninos, bonequinhos (estranhamente, não lembro de nenhum menino reclamar que queria uma bonequinha! ops, mas eu sou de 85, a geração emo foi concebida mais um pouco à frente!).
Bem, eu me distraí pintando e, quando vi, a professorinha me apressava porque a maioria das crianças estava já terminando de recortar ou iniciando as colagens e eu estava lá, terminando de pintar ainda (perfeccionista?? imagina!). Então comecei a recortar e logo a colar e, entre uma coisa e outra, o que seria o ‘pescoço’ da boneca se perdeu. Mas eu não reparei e colei a cabeça no tórax. Óoobviooo que ficou desengonçada e destoou das outras bonecas; e começaram a zombar da minha boneca-colagem, porque ela não tinha pescoço. Eu lembro de ficar olhando pra ela, sem conseguir sentir pena, porque afinal não entendia porque um pescoço havia se tornado tão-tão importante assim. Ela continuava sendo minha, eu havia escrito seu nome em um de seus braços (mesmo a professorinha dizendo que tinhamos que escrever nosso nome em um dos braços), tinha-lhe dado as cores de minha imaginação às suas roupas, cabelos e olhos, e mal podia esperar até leva-la pra casa e compartilhar com ela todos os gibis e livretos de história e os vhs de clips animados by disney para músicas clássicas. Imaginava-lhe sentindo a mesma alegria-comoção em assistir pela milésima vez a Branca de Neve e os Sete Anões, a valsa final magnífica em Bela Adormecida (o príncipe mais belo de todas as princesas, o mais gentil e o único que realmente sabia cantar e dançar! que partidão, o tal Príncipe Philipe) e perdendo o ar de tanto rir com as confusões do Pateta.

Nem de longe fui fisica ou mentalmente parecida com meus irmãos mais velhos: magros, altos, de cabelos claros e tez dourada, muitos amigos, risadas, castigos, punições e confusões.
Foi inevitável para minha mãe não comparar-me com eles, foi inevitável o sentimento de incompatibilidade familiar. Eu era baixa, gordinha, de uma palidez doentia, cabelos escuros, quieta, arredia. No lugar de amigos, eu tinha livros, ao invés de risadas, jogos solitários, ao invés de castigo eu tive o mérito de jamais ter levado um único tapa ou mesmo advertência no caderno. No lugar das punições, tive longas tardes com os olhos perdidos em algum lugar desconhecido e substituindo as confusões de adolescente, eu tive discussões homéricas, com rasgos de rebeldia selvática. Não me faltava o respeito, mas me faltava a capacidade de abaixar a cabeça e simplesmente aceitar.

Era precoce demais. Os livros haviam sido os companheiros mais velhos de aventuras e com eles eu aprendera que só é feliz quem se determina a escrever o seu destino e a cumprir o que se propôs. Eu poderia conversar e discutir quase todos os assuntos com uma pessoa adulta, sem cair na histeria infantil a que a grande maioria dos pré-adolescentes sucumbe após ver seus argumentos – antes sólidas torres – virarem pó ao chão. Ao contrário, aprendera com minhas tardes solitárias a me aferrar ainda mais à razão e aperfeiçoar meus argumentos, melhora-los e defende-los com unhas e dentes.
(e tinha uma timidez que chegava a me tornar arredia!)

Desde cedo, fui de poucas amizades. Poucas porém profundas e verdadeiras. Sou assim até hoje e não tenho do que me queixar; quanto à família, já superei a ‘rejeição’ de meus irmãos, o complexo de patinho feio e até as cruéis comparações familiares. Já que a família paterna me olhava perplexa e fazia comentários sobre como eu me parecia cada vez mais com minha mãe e a família materna fazia justamente o contrário (quase como numa partida de pingue-pongue) eu decidi que não me pareceria com nenhum deles.

Eu seria única e especial, a meu próprio modo, com minhas próprias regras, ouvindo minhas próprias músicas, seguindo meu próprio jeito de vestir (moda? que ser isso??), defendendo minhas próprias opiniões e sem me importar com o que os outros achavam.
No começo, foi dificil. ‘Ovelha negra’ era um adjetivo por demais positivo perto dos que foram usados. Mas depois de um tempo, eu conseguia ignorar solenemente. Essa coisa de melhor nem pior nunca me apeteceu; as fúteis competições cor-de-rosa não me turvaram as intenções.

Agora venço a timidez aos poucos. Ao invés de escrever na agenda, abro o bloco de notas. E me cobro postar isso. Que tipo de jornalista serei, se continuar com essa vergonha inconfessável dos outros lerem os meus textos?? Tenho que me corrigir e que seja logo. E afinal, é mais fácil o exercício de escrever/desabafar em um blog do que guardar tudo que se tem na mente pra se escrever mais tarde, na agenda.

Beeijoos e que neste fim de mês, todos consigam vencer suas limitações. Afinal, quem foi mesmo que disse que o céu era o limite? (e essa afirmação deve ter sido de antes da corrida espacial, pelo jeito!)

Não existe limite para aqueles que sonham. E que ousam transformar seus sonhos em felicidade, ops! realidade.

ouvindo: Auf Achse, Franz Ferdinand.